Areia

O texto é de 08/2011, o sentimento é eterno e a saudade uma professora.

A areia, o banquinho debaixo da mangueira, o pé de caju, o lugar dos meus sonhos, e ela estava sempre lá com um largo sorriso no rosto, agradecendo a Deus por ter concedido boa viagem, com um paninho no ombro e a mão na cintura, é assim que somos recebidos toda vez que chegamos a sua casa.

Quando criança, eu contava os dias pra que as férias chegassem logo, sonhava com a areia ao redor da casinha simples, de madeira, onde eu corria sem me cansar, rolava sem me preocupar com qualquer outra coisa além de me divertir e aproveitar aqueles momentos; sonhava com aquele franguinho na panela, aquele macarrão que ninguém no mundo sabe fazer igual ou melhor que ela; o cafezinho antes de sair pra viagem; sonhava com o abraço, aqueles mil beijos que ela sempre deu cantando: “Olha a santa da vovó, olha a santa da vovó, que a vovó ama demais minha filha!”; sonhava com a simplicidade daquele lugar, com a paz que me trazia, com a felicidade que me proporcionava.

Isabel Rodrigues de Sousa, esposa, mãe, mulher de Deus, a pessoa mais correta que conheci em toda a minha vida, a mais teimosa também, assembleiana do dedão do pé a raiz do cabelo, a pessoa de mais intimidade com Cristo que pude conhecer, tenho certeza que Deus nunca deixou de ouvir e atender um pedido que fosse feito por ela. Não existiria nesse mundo nada que pagasse o prazer de dormir ouvindo suas orações, de acordar ouvindo seus louvores, de passar o dia vendo a sua devoção ao Pai e a intimidade que você tem pra exigir coisas do tipo: “Jesus, eu não quero morrer em cama de hospital, quando o Senhor for me levar pra o seu seio, me traga pra minha casa, quero morrer aqui dentro de minha casa!”, preferia não pensar nisso, não ter que esperar por esse momento, não viver para ver esse dia.

Eu cresci nesse ambiente, o mês de julho era o mais feliz pra mim, o mais esperado! E quando cresci não houve mudança nisso, as obrigações e responsabilidades não proporcionaram mais as mesmas oportunidades da infância, mas sempre que pude visita-la nos últimos anos fui guardando e decorando cada cantinho desse paraíso, do meu paraíso singular, cada detalhe do seu rosto tão frágil e tão marcado pelas linhas do tempo, suas mãos tão sensíveis e ao mesmo tempo tão eficazes em realizar qualquer tipo de trabalho, sua pele fina e delicada que possui uma maciez incomparável a qualquer outra, aquele “jeitinho” de cantar os hinos da harpa que ninguém se quer consegue acompanhar, o lampião e a lamparina no canto da parede dos quais você nunca se desfez, do banheirinho de palha no fundo do quintal que você nunca deixou ser extinto,  daquela cama quebrada que é minha preferida, dos calendários antigos pendurados na parede, das árvores que existem desde que eu me entendo por gente nesse mundo, eu tenho guardado em minha memória cada mínimo detalhe que envolva sua existência em minha vida, e quando eu penso que podia ter aproveitado mais, que podia ter te beijado mais, te abraçado e acariciado mais, que eu podia ter ficado muito mais tempo te ouvindo, te olhando, eu entendo que o mais  que eu fizesse nunca seria suficiente, eu nunca conseguiria te aproveitar por inteiro, eu sempre ia achar que devia fazer mais, ser mais.

“Com sapato ou sem sapato, glória a Deus e aleluia!”, “Valei-me meu Cristo!”, “Ah bom minha filha a vó já tá ficando é bilé!”, “Meu Jesus é lindo, Tu é tão lindo Jesus!”, “Oxi,  a vó não tem nenhum filho feio, nenhum neto feio, os filhos da vó são tudo lindo que Jesus não deu nada feio pra vó!”…eu lembro de tudo isso, eu tenho tudo isso gravado em mim, e não importa o que aconteça, isso vai ficar em mim pra sempre.

Louvamos e agradecemos a Deus todos os dias pela sua vida e pedimos a Ele que quando lhe aprouver te colher, possamos estar ao menos confortados já que preparados nunca estaremos.

Dona Isabel, minha vó Bela, minha Vozona, minha mãe, minha intercessora, a coluna mais sólida de toda essa família, não seriamos nada sem você meu amor, sem seus ensinamentos, sem seus conselhos, sem a sua fé, sem o seu exemplo de vida, sem seus carinhos, seus cuidados exagerados, seu amor incondicional, você é a essência dessa família, você é a nossa maior preciosidade, o maior tesouro que o Senhor pode nos conceder.

A areia, o banquinho debaixo da mangueira, o pé de caju, o lugar dos meus sonhos, e ela estará sempre lá com um largo sorriso no rosto,  um paninho no ombro e a mão na cintura, é assim que eu quero me lembrar de você, quando nada mais disso existir na minha realidade, quando o que restar for apenas as lembranças, você vai estar sentada, com a Bíblia nas pernas, cantando: “Você vai e eu também para a nova Jerusalém!”

 

Hoje, Deus sentiu saudade de ouvir sua voz mais perto (há tantos dias já não ouvíamos) e te levou pra junto dEle.

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